A Fazenda Carnaúba pertence à família Vilar desde 1791, data de sua fundação. Vem passando de geração em geração, sendo preservada ao longo do tempo, desde 1782, quando pertencia a uns padres da época.

É considerada pelos que frequentam, muito mais que uma fazenda de pecuária, para se produzir e dela viver, como é bastante conhecida mundo afora. Para os que vivenciam a Carnaúba, além de uma referência de meio de vida produtivo e honrado, é também um lugar sagrado, que favorece a reunião de pessoas, emanando uma energia positiva, única, que reconstrói e afaga.

Como representante da sua geração, andando na contramão, institucionalmente sozinho, Manelito Dantas tornou-a um exemplo de sistema de produção na região e também uma espécie de patrimônio imaterial cultural do Brasil, sendo reconhecida e valorizada, além mar. Esse fato foi consequência do comprometimento que possuía, com total empatia, em dar continuidade ao sonho visionário, sábio, consciente e realista do Pai, Seo Dantas.

Após a morte de Seo Dantas, Manelito abandonou toda sua vida urbana/profissional ascendente e promissora, iniciada com meritocracia aos 22 anos de idade (ocupava cargos de professor titular em Universidade, de Engenheiro Sanitarista e de chefias no Serviço Público), para dedicar-se totalmente às fazendas, na busca de continuar sua missão, com anseios e visão direcionados, baseados em longas conversas que tinha com o seu Pai.

Hoje, o trabalho que foi continuado e aprimorado, espera ser mantido nessa condição pelas gerações que se sucederem, sem perder o foco principal, que é o sistema de produção adequado para a região, considerando todos os seus aspectos técnicos, sociais e culturais.

Seo Dantas, alfabetizado por sua mãe, complementou seu aprendizado por meio de Eça de Queiroz, Euclides da Cunha, entre outros. Era um homem sábio, que enxergava além do tempo.

Ao casar com Alice Vilar Pequeno, herdou uma parte das terras da Carnaúba, e nelas foi trabalhar, plantando roçados de algodão, considerados o “ouro branco” da época. Empenhado em aumentar sua produtividade, com os esforços e rendimentos de seu trabalho nas terras da Carnaúba herdadas por sua esposa, incorporou partes que se avizinhavam. Fez sociedade com um irmão em uma estrutura de beneficiamento de algodão, dentro da Carnaúba, que atendia a região. A produção era vendida para grandes indústrias em cidades maiores, como a SAMBRA em Campina Grande.
Continuou suas plantações e o beneficiamento de algodão, até sentir que o mercado já não estava mais tão bom. Por esse motivo, parou o beneficiamento em 1937, mas continuou com os roçados, que eram os maiores da região.

Naquela época, ingressou na Pecuária como outra alternativa, e instintivamente enxergou no Gado Zebu, as características ideais para se criar nas condições da região da Carnaúba. Pesquisando em revistas de pecuária, encontrou anúncios de gado da raça Guzerá para vender, no Rio de Janeiro. Em 1934 fez a primeira viagem para buscar animais, indo de cavalo de Taperoá até Campina Grande, e de lá, de trem até Recife, de onde seguiu de navio. Dessa forma, introduziu o Guzerá na Paraíba.

Por aqui, além de ter sido pioneiro na criação desse Zebu, também introduziu o uso de cercas de arame farpado, de energia elétrica, de abastecimento d'água por meio da força do vento (de cata-ventos) e de saneamento na zona rural.

Neste contexto, priorizou a criação de gado zebu, Guzerá, deixando o algodão em segundo plano. Assim, sustentou e formou (em boas escolas e universidades) seus sete filhos e ajudou parentes e muita gente da região.

Seo Dantas faleceu trabalhando, de forma súbita, em 1969, quando Manelito, já envolvido na fazenda de alguma forma, foi largando sua vida profissional urbana para continuar o sonho realista, e visionário do seu Pai. Dos sete irmãos (todos com vida urbana também), ele era o que tinha mais afinidade com as terras.

Naquele momento, entendeu que teria que seguir adiante, e para isso, precisaria se dedicar integralmente. Agiu assim por opção, com grande satisfação. Seguindo o caminho já trilhado, teve a preocupação prática, técnica e oficial, de não desmanchar o trabalho pioneiro e promissor que já tinha sido realizado até então.

Sendo a 8ª geração familiar na Fazenda Carnaúba, cuidou dela com empenho integral e exclusiva dedicação, por mais de meio século. Dedicou todos os seus esforços para preservar o legado do Pai, o gado Guzerá introduzido, e buscou, como já dito, institucionalmente sozinho, viabilizar um sistema de produção adequado, que pudesse dar sustentabilidade às fazendas e servir como exemplo para região.

Viabilizou incrementos que o passar do tempo elucidava...

Abandonou as lotéricas lavouras temporárias da agronomia oficial, que conflitam com a distribuição das chuvas daqui, e pioneiramente foi buscar na Ásia e Norte da África, elementos biológicos (plantas e animais) de seus pré-desertos, compatíveis com a desarrumação da pouca água natural existente.

Entre outras tecnologias, introduziu na região o cultivo dos Capins Buffel australianos (perenes) e a prática bíblica da Fenação.

Valorizou a manutenção e até o cultivo, das plantas nativas, incorporadas aos campos desses capins perenes.

Implantou o primeiro laticínio artesanal do Brasil, para produção queijos de cabras diferenciados, seja pelas raças dos animais e ervas próprias da terra usadas como condimentos e essências vegetais (igualmente nativas), como também pela maturação que o clima propiciava. Até hoje, a câmera de maturação para queijos artesanais, mais antiga do Brasil, encontra-se ainda em funcionamento, na Carnaúba

Desenvolveu o uso regional do bagaço de cana hidrolisado por via química, para suprimento de forragem para os animais em tempo prolongado de seca.

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Em suma, Manelito pioneiramente caminhou com sucesso, em sentido contrário às equivocadas linhas de ações oficiais, na tentativa de implementar um sistema de produção realmente viável para a região, tendo como raiz as terras e o sonho visionário do Pai.

Dedicou-se, em tempo integral, à Fazenda Carnaúba, em Taperoá – PB, onde hoje, seus filhos dão continuidade com mesmo zelo, aos rebanhos bovinos de dupla aptidão registrados das raças Guzerá e Sindi, além do Curraleiro Pé Duro, aos ovinos deslanados e caprinos leiteiros de raças nativas, utilizando-se de uma agricultura para suporte a essas criações, valorizando os ricos produtos resultantes delas. Atualmente, a Carnaúba possui 50 anos de controle e aferição da produção de leite das vacas Guzerá, assim como 40, das vacas Sindi.

Essa iniciativa, penosamente construída por falta de bibliografia e informação apropriada, à custa de tentar, errando e acertando, está na base da valorização que a caprinocultura brasileira adquiriu (o NE seco abriga 96% do rebanho nacional).

“A gratificação por ter feito, servindo aos produtores do semiárido real, fica na conta e satisfação que carrego.” (Manelito Dantas).

Desde o declínio da cultura algodoeira, a economia do semiárido tem resistido quase exclusivamente com a pecuária. Particularmente, aqui na Carnaúba, evidencia-se que a pecuária bem manejada, englobando desde a produção de forragens adaptadas que chamamos agricultura de suporte à pecuária com as lavouras xerófilas, capins de regiões semiáridas como as variedades de Buffel e dezenas de forrageiras nativas, até o beneficiamento do leite (a produção do queijo), emprega-se permanentemente um número significativo de sertanejos.

Então, a partir da agregação das terras e da pioneira introdução do Zebu no Nordeste, feita por Seo Dantas, a “Fazenda Carnaúba”, sob a batuta de Manelito Dantas e atualmente de seus descendentes, ocupa o patamar de “modelo de sistema de produção para o Semiárido Nordestino”, através da criação e incorporação de tecnologias funcionalmente corretas, com resultados técnicos, sociais e culturais destacados.

Nessa caminhada, andando na contramão do oficial, reconhecidamente pioneira na criação do sistema de produção viável para a região, conseguiu-se firmar conceitos e teorias verdadeiramente estruturantes, ricos, significativos e importantes.

Muita coisa ainda precisa ser feita a nível institucional e oficial.